newsletter #39

ASSIM QUE DÃO UM NOME À DOR

Todo dia antes de dormir, já há uns meses, tenho me aventurado numa leitura muito diferente das minhas habituais: a Bíblia. Toda ela. Por quê? O que estou achando? Isso é assunto pra uma outra newsletter, se Javé me der paciência e permitir que eu chegue até o final (o Kindle me diz que estou em 21%). O que consigo dizer até agora é que parece que o autor gastou a melhor inspiração logo nas primeiras linhas, no Gênesis. Isso de ver o que a gente é capaz de inventar quando resolve contar uma história de origem, da origem de tudo, é bonito. Pessoalmente, o detalhe que mais gosto é quando, logo depois de criar a luz e as trevas, a primeira coisa que Deus-todo-poderoso se lembra de fazer é algo profundamente humano: ele dá nomes ao que fez. Isso aqui vai se chamar “Noite”. Isso vai se chamar “Dia”. Depois cria os céus e a terra e, de novo, imediatamente nomeia cada um.

Parece tão simples pra nós, que já nascemos com (quase) tudo ao nosso redor nomeado, que é até difícil imaginar o tamanho do poder que está contido no gesto de nomear. Nomear qualquer coisa é um tremendo exercício de autoridade, e responsabilidade. Um pai nomeia um filho. Um povo nomeia o seu território. Aí vem o colonizador, junta um monte de povos e territórios, e diz: isso agora se chama América. E esse bando de gente aí dentro já não são mais Ianomami, nem Asteca, nem Sioux: é tudo índio. E pronto, está justificado o nomeador fazer o que bem entender com o nomeado. Inclusive (especialmente) exterminá-lo. Não é à toa que o Voldemort era “aquele que não deve ser nomeado” — só se atrevia a nomeá-lo quem tinha peito pra encarar o bicho. E não é à toa que o nosso Voldemort laranja do mundo real tava aí querendo renomear golfos e montanhas. É que esse lance de nomear, minha gente, é poder. Do maior que tem. Agora, aqui entre nós, ironia das ironias é o país mais poderoso da história não ter conseguido inventar um nome decente pra si mesmo…

Mas sim, é verdade que tem coisas que são absolutamente nossas, intransferivelmente nossas, e mesmo assim a gente tem uma dificuldade tremenda de nomear. Enquanto trabalhava no Meigo Energúmeno, e principalmente n’O Homem Triste, aprendi que, no que toca às nossas emoções, essa dificuldade é particularmente grande entre os homens. Uma observação muito frequente nos estudos sobre masculinidade é que faz parte da socialização dos meninos uma progressiva desconexão com os próprios sentimentos (com exceção da raiva). Desde o clássico “homem não chora”;  a inibição de demonstrações de carinho pelos amigos; a tendência das amizades entre rapazes serem mais superficiais (justamente porque nelas não se fala sobre sentimentos profundos); a valorização cultural daquele arquétipo masculino durão, silencioso, misterioso, e por aí vai… Até o ponto em que a capacidade de falar sobre os nossos sentimentos atrofia.

Eu identifico esse padrão em muitos homens que conheço, e em mim próprio. Em momentos de angústia ou de alegria mais intensas preciso muitas vezes fazer um esforço consciente pra compreender e expressar o que estou sentindo. E o primeiro desafio nesse processo é nomear. A partir do momento em que a gente nomeia o sentimento, é como se nos apoderássemos dele, e fica muito mais fácil identificar de onde ele vem, e pra onde queremos endereçá-lo. “Quando a cura começa”, a última música d’O Homem Triste, fala exatamente sobre isso.

Há uns tempos a Flávia, minha namorada, me encaminhou uma imagem chamada “emotions wheel”, que circula aí pela internet, não é difícil encontrar versões dela. É basicamente um círculo onde no centro estão emoções mais básicas, e conforme vamos nos afastando desse centro, elas vão se bifurcando em emoções mais específicas. Eu adorei a ferramenta, e já usei várias vezes como uma ajuda pra processar sentimentos que eu não estava compreendendo bem. Ela não te dá uma resposta, é claro, mas você bate o olho, dá umas voltinhas na roda, e em poucos segundos já encontra uma pista, um início de caminho. Depois é caminhar.

Como o “emotions wheel” original é em inglês, eu resolvi traduzir o meu pra português, pra facilitar ainda mais. Essa minha versão eu chamo de ROLETÃO DO CORAÇÃO. Deixo aqui pra vocês poderem consultar, salvar, compartilhar, modificar… Façam bom uso!

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Roletão do Coração

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍

Felizmente a Bíblia não é a única leitura que tenho feito. Estou terminando agora o ótimo Rebenta a Bolha! – Autoajuda para uma esquerda deprimida, do Manuel Afonso. Aquele livro que a gente vai lendo e fazendo que sim com a cabeça a cada capítulo. E que alegria que a primeira atividade do mês vai ser conversar com o Manel sobre esse trabalho dele, na Feira do Livro do Porto. A última também vai ser muito especial, porque vou, pela 3ª vez na vida, subir ao palco com um grupo de Cante Alentejano.

🇵🇹 PORTO — dia 5/9: Feira do Livro do Porto – Conversa com o Manuel Afonso sobre o livro Rebenta a Bolha! – Lago dos Cavalinhos – 14h

🇵🇹 SEIXAL — dia 6/9: Festa do Avante! – DJ set Tropicáustica – Palco Paz – 22h

🇵🇹 BEJA — dia 25/9: Centro Unesco – 50º aniversário do Sindicato de Professores da Zona Sul – 21h30

🇵🇹 CABRELA — dia 26/9: Alentejo Heritage Festival – 21h30 – BILHETES

NA ESCUTA, CÂMBIO 📡

No mês passado vocês brilharam muito com as sugestões de palavras PT-BR e PT-PT que a gente poderia intercambiar. O campeão, citado diversas vezes, foi o verbo “saber”, que em Portugal pode ter o sentido de “ter sabor”. Realmente é uma delícia, e acho que faria sucesso no Brasil a gente poder dizer: “essa jabuticaba sabe bem demais!”. Também teve gente que, depois de viver em Portugal, passou a sentir falta das conjugações em segunda pessoa, e até de usar um “vosso” de vez em quando, sem parecer que saiu diretamente da corte de D. João VI. Já pelo outro lado, tivemos ainda mais sugestões. Tipo, trocar o “trotinete” português pelo “patinete” brasileiro, e o “autoclismo” pela “descarga”, por exemplo. Aí eu já discordei. “Autoclismo” é uma palavra divertida demais pra gente mandar pela sanita abaixo. Mas as sugestões de adoção do nosso “ué?” e do “trem” — não em substituição do “comboio”, mas como os mineiros usam, em que a palavra pode substituir qualquer outra — isso eu concordo 100%.

LUCA TE ESCUTA👂

Sentiram falta de algum sentimento importante que ficou de fora do ROLETÃO DO CORAÇÃO? Eu próprio tenho lembrado de coisas e feito umas alterações, volta e meia. É um work in progress aberto à colaboração de vocês, pelo tradicional botão aqui em cima.

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