newsletter #38
FALHANÇO
Nunca tinha ficado tão revoltado lendo uma entrevista. Pelo menos não uma que eu mesmo tinha dado. Ainda por cima era uma entrevista por escrito, não havia razão pro jornalista adaptar o meu jeito de falar. A gota d’água foi quando encontrei a palavra “falhanço”. Eu li e pensei: “Absurdo! Eu certamente escrevi ‘fracasso’ e aportuguesaram o meu texto! A troco de quê?!”. Além dessa, identifiquei nas minhas respostas várias outras pequenas construções e expressões que nós não usamos no Brasil, só em Portugal.
Possuído pela indignação, comecei a preparar uma mensagem desaforada pro jornalista. Encontrei no meu email o documento original com as minhas respostas pensando: “Ainda bem que a entrevista foi por escrito, vou poder apontar uma a uma as alterações que eles fizeram, e esfregar na cara deles.” Abri, e comecei a reler. Reli mais uma vez, pra ter certeza. Quando terminei, não sabia se estava menos ou mais irritado. O texto estava rigorosamente igual ao publicado. Eles não alteraram nada. Nem uma vírgula. O “falhanço” era meu. Era tudo meu. Como era possível? No que eu tinha me tornado?? É assim que eu escrevo agora???
Não é que eu tivesse a ilusão de que, depois de 14 vivendo num outro país, a minha forma de se expressar permaneceria intacta. É claro que mudou. E muito dessa mudança eu abracei intencionalmente. Mas o problema foi justamente esse. Eu achava que tinha controle sobre o processo. Achava que podia mudar a chave quando e como quisesse, até que… “falhanço”.
Passado o susto inicial, comecei a fazer as pazes comigo mesmo pela auto-traição. Ajudou bastante a leitura do último livro do Gregório Duvivier, que, curiosamente, ganhou nomes diferentes no Brasil (“Aos Pés da Letra”) e em Portugal (“À Flor da Língua”). Especificamente num trecho em que ele diz:
Ênio, poeta latino, falava três idiomas (grego, latim e osco) e por isso dizia que tinha três almas — ou três corações. Todo mundo que fala outra língua já se descobriu com outros trejeitos, outro humor e até outras opiniões por causa da língua nova. Também é possível reparar o seguinte: um amigo de infância falando outra língua se torna um estranho total pra nós.
Não se trata exatamente de uma outra língua, no meu caso. Mas a sensação, naquele momento, foi de me descobrir um estranho pra mim mesmo. Uma sensação terrível, a princípio, até eu começar a perceber que na verdade poderia ser bastante divertido (ainda mais pra um geminiano) isso de ter mais que um coração. É aquela história: identidades estão menos pra rocha do que pra plasticina. Quer dizer, massinha. É feito pra brincar, também. E mesmo o “falhanço”, palavra que sempre achei muito feia, ganhou pra mim uma nova vida quando li, mais à frente no livro, o Gregório falar precisamente sobre ela:
Sinto falta dessa palavra por aqui. Quer dizer, temos boas palavras pra isso, ambas de origem italiana: fracasso e fiasco. Mas não só: temos o flop, cada vez mais popular entre os jovens. Curiosamente, todas as palavras começam com F: teria algo de falho nessa letra? Algo de fraco, de frágil ou de frouxo? Não sei. Mas sei que faz falta a palavra mais trágica, a mais dolorosa pro fracasso: falhanço.
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍
Lembro com clareza (acho que todo imigrante que chegou nessa etapa se lembra) do dia em que saiu a minha cidadania portuguesa. A primeira coisa que fiz foi tirar uma foto do Cartão de Cidadão, mandar pra minha produtora e dizer: “Olha só! Agora já posso tocar no Bons Sons!”. Pro pessoal aqui da newsletter que não conhece, o Bons Sons é um festival que acontece numa aldeia super linda no centro de Portugal, tem uma programação sempre muito interessante, e todo mundo que vai lá fica completamente apaixonado. Eu sempre quis ir. O problema é que é um festival de música portuguesa, e eu não era português — até aquele dia. Mas mesmo com a identidade na mão, vou contar pra vocês, não foi fácil. Foram uns sete anos de tentativas e falhanços até chegarmos a este momento em que posso finalmente dar bom uso ao meu Cartão de Cidadão. Estarei no Bons Sons esse ano!
🇵🇹 CEM SOLDOS / TOMAR — dia 7/8: Bons Sons – BILHETES
🇵🇹 NESPEREIRA / CINFÃES — dia 13/8: Kulverão – ENTRADA LIVRE
🇵🇹 LISBOA — dia 16/7: Musa de Marvila – Samba Sem Fronteiras – ENTRADA LIVRE
NA ESCUTA, CÂMBIO 📡
Adorei saber das vozes masculinas preferidas de vocês, depois da última newsletter (com direito a relato de um show inesquecível de João Gilberto, que o Otávio mandou!). Mas agora estou curioso é pra saber, d@s amig@s de Portugal, se tem alguma palavra específica do Brasil que vocês adotariam, ou gostariam que fosse adotada? E d@s amig@s do Brasil a mesma coisa, só que com relação a palavras específicas de Portugal?
Eu posso começar. Posso, inclusive, jogar o jogo nos dois sentidos. Uma das palavras portuguesas que eu adoraria ouvir no Brasil, até já usei em letra de música, é esferovite. Que é o nosso isopor. É que o som de “esferovite” parece muito mais o som que o isopor faz. E das palavras brasileiras, sem sombra de dúvida, acho que por aqui faz muita falta a nossa bunda. Um redondo e lindo vocábulo.
