newsletter #35
ANSIEDADES QUANTO A BEIJINHOS
Tem sempre aquele momento em que você chega no lugar combinado, digamos, numa festa de aniversário, e já está lá um grupo de pessoas. Algumas você conhece, outras não. E começa o baile dos cumprimentos. Comigo acontece algo parecido com isto:
Reparo que estou mais próximo de um casal, um homem e uma mulher, então começarei por aqui. Tento dar aquela fração de segundo para a outra pessoa poder decidir antes de mim como será o cumprimento, assim evito qualquer responsabilidade na matéria, o que facilita muito a vida. O homem toma a frente, e estende a mão. Eu aperto, e com a outra toco em seu ombro, um complemento que ameniza um pouco a rigidez do gesto, e de quebra compensa com uma pitada de calor humano a minha falta de iniciativa de há dois segundos. Logo em seguida, a vez da mulher. Será sua namorada? Esposa? Será que acabaram de se conhecer? Por via das dúvidas, dou aquele micro-compasso de espera e ela inclina-se para os beijinhos. Ótimo, tudo sob controle.

“Um Homem Tem de Saber Fazer Coisas” (Rosário Pinheiro, 2021) Da série: “Não És Homem Nem És Nada”
Até aqui estou como manda a tradição masculina: aos homens apertar as mãos, às mulheres dar beijinhos. É seguro. Mas também é aquela chatice tremenda. Sem contar que me sinto reforçando o patriarcado inscrito na nossa linguagem corporal. Isto é, como bons cavaleiros medievais, os homens ainda estendem a mão direita, a que segura a espada, para demonstrar que não a pretendem usar contra você. A violência, sempre ela, mediando a nossa conduta. E os beijinhos, mais delicados e afetuosos, embora comuns entre homens desde pelo menos o império romano, em algum momento parecem ter virado um cumprimento feminino demais. Ou pelo menos foi assim que aprendi. É tudo tão arbitrário e sexista… Será que devo continuar compactuando com isso? Será que eu não deveria me insurgir contra esses padrões? Tipo, agora mesmo? A transformação social começa nos pequenos gestos!
Todos esses pensamentos passam pela minha cabeça enquanto me aproximo do próximo cumprimento.
Mas este agora é um velho amigo. Vai ser moleza. Vamos começar a quebrar esses paradigmas, e é pra já! Ele vem com a mão estendida, eu aperto, claro, para não deixá-lo no vácuo, e aproveito o movimento para puxar o seu corpo para um abraço. Mas penso que ainda é pouco. Vamos ousar. Quando meu rosto se encaixa sobre o ombro dele, dou um beijinho em sua bochecha. Um beijinho discreto. De leve. Também não vamos fazer a revolução toda de uma vez, não é?
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“Andar à Porrada É de Homem” (Rosário Pinheiro, 2021) Da série: “Não És Homem Nem És Nada”
Embalado por essa energia transgressora, começo a me aproximar da próxima pessoa, uma mulher que o meu amigo está acabando de me apresentar. Inclino o rosto cheio de confiança para os beijinhos… mas ela ao mesmo tempo estende a mão. Instante constrangedor. Recuo, e aperto a sua mão com firmeza (não vá ela presumir que eu estou presumindo que ela seria delicada demais), enquanto concluo mentalmente que “beijinhos para todos” talvez não seja a melhor saída para despatriarcalizar os cumprimentos. Não, o melhor será nivelar por baixo: apertos de mão para todos! Isso. Pelo menos até que alguma intimidade se estabeleça, e o cumprimento evolua de mútuo acordo. Assim, os que não se sentirem à vontade com a proximidade corporal dos beijinhos serão sempre respeitados.
Muito bem. Convencido de que cheguei na melhor solução possível para o meu dilema, dirijo-me à próxima pessoa a cumprimentar. É uma outra mulher que nunca vi na vida. Oportunidade perfeita para pôr em prática o novo plano. Estendo a mão… e ela ignora completamente o meu gesto, me dá dois beijinhos, e segue para dar outros beijinhos na pessoa atrás de mim.
E agora? Já não sei o que fazer com o próximo cumprimentante. Desconcertado, fracassado, abandono a minha pequena insurreição. Não é que eu tenha deixado de acreditar no poder revolucionário dos beijinhos. Longe disso. Mas talvez outras coisas precisem vir antes deles.

“Já Não Tens Idade Para Beijar o Teu Pai” (Rosário Pinheiro, 2021) Da série: “Não És Homem Nem És Nada”
Tenho feito uma brincadeira no meio dos concertos d’O Homem Triste. Digo que todo menino, quando completa 5 anos, recebe por correio uma carta com uma lista de todas as coisas que ele, a partir daquele momento, está proibido de fazer, caso queira entrar para o clubinho dos homens. Eu chamo de “Lista do Não Pode”. Entre essas coisas, é claro, está o “dar beijinhos a outro homem”. Mas tem muitas outras. Recentemente me pediram por aqui para transcrever essa lista completa e partilhar com vocês. Então aqui vai:
LISTA DO NÃO PODE
Não pode ser (nem parecer) gay (ou mulher)
Não pode andar rebolando
Não pode quebrar a munheca
Não pode quebrar as cadeiras
Não pode cruzar as pernas fechadas
Não pode ter voz fina
Não pode dar beijinhos em outro homem
Não pode dizer que outro homem é bonito
Não pode andar de mãos dadas com outro homem
Não pode dizer que gosta de outro homem
Não pode negar sexo
Não pode brochar
Não pode usar saia
Não pode pintar a unha
Não pode usar maquiagem
Não pode usar roupa cor de rosa
Não pode gostar de nada cor de rosa
Não pode brincar de boneca
Não pode brincar de cabeleireiro
Não pode gostar de moda
Não pode ser muito vaidoso
Não pode ter amiga mulher
Não pode gostar fazer tricô
Não pode gostar de cozinhar
Não pode pedir ajuda
Não pode sentir dor
Não pode chorar
Não pode desistir de nada por medo
Não pode não gostar de futebol
Não pode fazer xixi sentado

Lendo a lista durante um concerto (foto da Vera Marmelo)
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍
O meu giro pelo Brasil já está aí! Daqui a poucos dias pouso em BH para começar as apresentações, e só paro dia 19 em Fortaleza. Às amizades que estiverem nas cidades por onde vou passar, ou que conhecerem pessoas que estão lá: vocês vão me deixar IMENSAMENTE feliz se ajudarem a passar a palavra, recomendar o show, levar aquele grupo para assistir junto… Prometo apertos de mão ou beijinhos no final, para quem quiser.
🇧🇷 BELO HORIZONTE — dia 29/4: Casa Outono – BILHETES
🇧🇷 SÃO PAULO — dia 7/5: Odette – BILHETES
🇧🇷 RIO DE JANEIRO — dia 9/5: Acaso Cultural – BILHETES
🇧🇷 SALVADOR — dia 14/5: Colaboraê – BILHETES
🇧🇷 RECIFE — dia 15/5: Pingo Arte Café – BILHETES
🇧🇷 JOÃO PESSOA — 16/5: General Store – BILHETES
🇧🇷 NATAL — 17/5: Figa – BILHETES
🇧🇷 FORTALEZA — 19/5: Casa Mercúrio – BILHETES
🇵🇹 GRÂNDOLA — dia 22/5: Pátio da Biblioteca e Arquivo – Canções Para Beber com Pessoa (c/ Ana Deus) – ENTRADA LIVRE
🇵🇹 MONTIJO — dia 23/5: Cinema-Teatro Joaquim de Almeida – O Homem Triste – BILHETES
NA ESCUTA, CÂMBIO 📡
E para encorajar vocês nessa missão, vou fazer aquele tradicional sorteio de ingressos. Os primeiros a se manifestarem pelo link aqui embaixo, dizendo que querem um, e deixarem o nome, a cidade, e uma forma de contato (email ou whatsapp), vão ganhar um ingresso pro show na cidade desejada! Leitores atentos aqui desta nius, é com vocês.
Para quem não puder assistir a nenhuma dessas datas, tenho um pedido diferente: o que vocês acham que está faltando na “Lista do Não Pode”? Ainda tenho um espaço no pergaminho para acrescentar coisas…
