newsletter #33

AS MÃOS MAIS MACIAS DO MUNDO

Ela tem as mãos mais macias do mundo, mas sempre se queixa de que estão pegajosas (não estão): “Parece que peguei num doce” e fica esfregando os dedinhos. De repente começa a rir de qualquer bobagem, e não consegue mais parar de rir. Mas às vezes fica silenciosa e chora, sem ninguém (nem ela) entender por quê: “Acho que estou triste comigo mesma”.

Nesses últimos anos ela adquiriu duas habilidades notáveis. Uma é conseguir andar extremamente devagar. Tão devagar que, para olhos destreinados, parece que está parada (mas não está). Outra é a habilidade de se esquecer. Esquecer de qualquer coisa, por mais recente ou terrível que seja, assim, num estalar de dedos, sem o menor esforço.

Às vezes vira-se para nós e pergunta: “é o nosso amigo, não é?” fazendo referência a alguém que não está presente (ou será que está?). E como já não ouve muito bem, e como já não enxerga muito bem, eu posso ficar em pé atrás da sua cadeira verde, ou mesmo ao lado da sua cama, a observá-la, durante muitos minutos, sem que ela sequer perceba que estou ali. E é nesses momentos que sinto como o tempo vibra diferente, sem mais nada que lhe exigir, vibra diferente, só para ela.

Segundo as minhas anotações, era assim a minha avó Aparecida aos 94 anos. Depois ela fez 95. Depois deixou de andar. Depois de falar, depois de comer, e por último de respirar. Foi uma longa preparação. Sem grandes surpresas, sem grandes sobressaltos. Morreu com a mesma delicadeza que viveu. Há exatamente um mês. Eu não estava lá. Mas já tínhamos nos despedido. Foi uma longa despedida. Para ajudar a concluí-la resolvi interromper a programação normal desta newsletter e apresentar a vocês D. Aparecida.

Francisco Hurtz - "Fiscal de Cu" (2020)

Um dos ataques de riso

Esta é a Dona Maria Aparecida, mãe de minha mãe, com quem cresci e vivi durante muitos anos. Até eu ficar adulto, ela era a única pessoa da casa que gostava de tomar cerveja. Achávamos isso muito engraçado, porque vovô, por outro lado, nunca tocou em álcool. Foi ela quem me ensinou a Ave Maria e o Pai Nosso. Depois ela disse que ia me ensinar o Salve Rainha, dizia as primeiras palavras (que são, basicamente, “Salve Rainha”), e deixava sempre o resto para a próxima vez. Nunca aconteceu. Acho que ela própria já não se lembrava bem dessa.

Cozinhava muito bem, embora tivesse uma sensibilidade térmica muito estranha. A comida nunca estava suficientemente quente para ela. Quantas vezes não me fez requentar um prato que, para mim, já estava pelando, mas que para ela ainda estava frio. Também pegava em panelas e travessas quentíssimas sem se queimar, coisa que sempre me assombrou. Podia ser uma Targaryen, com seus cabelos platinados, mas não. Era mineira. Quando procurava uma coisa pela casa não perguntava “onde está ___ ?”, perguntava “quéde ___ ?”. Foi já velho e barbudo que me dei conta que o “quéde” da minha vó era nada mais que a redução em mineirês da expressão “o que é de ___ ?”, que por sua vez é redução de “o que é feito de ___ ?”

Foi aluna da da Universidade Aberta da Terceira Idade, na UERJ, onde uma vez fui assistir à sua apresentação de fim de ano. Lembro que eram dezenas de turmas, centenas de senhorinhas e senhorzinhos, no auditório grande da universidade. Cada turma dançava uma música. Não lembro qual era a música da turma dela, mas lembro que ela estava com uma gravatinha azul, e muito feliz. Me apresentou a todas as amigas. Durante anos ela também praticou Tai Chi Chuan na pracinha em frente à nossa casa. Nessa época meu irmão fez um vídeo lindo dela mostrando os movimentos do Tai Chi, para um trabalho dele na faculdade. Eu forneci a trilha sonora. É uma das lembranças mais bonitas que temos dela.

Nos últimos anos ela também se tornou uma grande leitora. Adorava aqueles best sellers água com açúcar, tipo Nicholas Sparks, essas coisas. Tinha uns 3 ou 4 desses no armário, que estava sempre lendo. E eram sempre os mesmos. Terminava um e poucos dias depois esquecia o que tinha lido, e voltava a reler tudo de novo. Um dia minha mãe deu pra ela ler o meu primeiro livro de poesia. Ela leu, e disse que não entendeu nada. A culpa é exclusivamente do autor.

“Que saudade do Nicholas Sparks”

Quando não estava lendo, fazia bordados. Tenho uma coleção de panos de prato bordados por ela. Todos bem coloridos, com formas geométricas. Nas últimas séries ela tentava, mas já não conseguia mais manter o ponto. A simetria das formas se transformou em labirintos confusos. Uma mudança acontecia dentro da cabeça dela, uma desorganização impossível de explicar com palavras, mas com agulha e linha suas mãos conseguiam transformar em imagens. Assustadoras e belas.

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Começou assim

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E foi mudando

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Até ficar assim

Nesse último mês tenho me ocupado em dar à luz músicas novas, um disco novo, e um espetáculo novo que já vai na estrada. Ao mesmo tempo, também começo a descobrir e habitar um mundo novo, onde pela primeira vez Dona Aparecida já não está.

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍

E tenho que agradecer a todo mundo que lotou salas pelo país para ver o nascimento d’O Homem Triste. Juro que não esperava tanto. Tanta intensidade, tanta cumplicidade. Não podendo estar no Brasil com a minha família, não poderia imaginar melhor forma de passar esses dias. Cantando e tocando pra vocês. Quem ainda não assistiu, atenção nas novas datas. A mais próxima é já neste dia 7, em Palmela. Depois há Samba de Guerrilha em Coimbra, o que é sempre um acontecimento. E antes de voltarmos para as apresentações do disco novo que estão marcadas para abril (haverá uma bem próxima de Lisboa!), vou dar um pequeno giro por Barcelona e Madrid, com o violão nas costas. Avisem os amigos de lá, vale?

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🇵🇹 PALMELA — dia 7/3: Cine-Teatro S. João BILHETES

🇵🇹 COIMBRA — dia 11/3: Convento S. Francisco Samba de Guerrilha BILHETES

🇪🇸 BARCELONA — dia 27/3: New FizzBILHETES

🇪🇸 MADRID — dia 1/4: Latroupe Club Prado – BILHETES

 

NA ESCUTA, CÂMBIO 📡

Digam aí: quem já conseguiu assistir ao vivo O Homem Triste? O que acharam? Que tal aquela cenografia? E aquele início diferente? Em que momento vocês acharam que o concerto tinha realmente começado?

LUCA TE ESCUTA👂

Até a próxima, minha gente. Mês que vem vai ter datas para o Brasil!

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