newsletter #37
TU É CANTOR?
Estava no Celeiro pegando a carteira pra pagar o almoço e a menina do caixa pergunta: “Tu é cantor, não é?”. Foi há um ano, na época do espetáculo com a Filipe Sambado no CCB, e as nossas carinhas estavam escarrapachadas naqueles painéis de vídeo por toda a cidade. A menina do Celeiro é brasileira, me via por lá toda semana, e reconheceu o cliente numa dessas publicidades. Até aí tudo bem. Mas por algum motivo a pergunta dela me desconcertou. “Tu é cantor?”
Geralmente, quando precisam definir a minha ocupação em entrevistas, apresentações, sinopses, & etc, não é essa a palavra que usam. É mais fácil dizerem compositor, cantautor, poeta, investigador, ou até ativista. É como se “cantor” fosse redutor demais. No entanto, naquele momento achei tão bonito ser reconhecido assim! Por uma pessoa que não conhecia nada do meu trabalho, e provavelmente só tinha ouvido a minha voz pedindo um caril de tofu, uma lasanha de beringela, uma abóbora recheada. Daí, recebendo um mínimo de informação, concluiu: ele é cantor. O termo mais fácil de explicar a qualquer pessoa. Redutor, sim, mas no sentido em que é o meu ofício reduzido ao tutano, à sua essência mais radical.
É que por dentro a gente é tão complexo, cheio de variáveis, contradições, interesses dispersos, que foi bom poder me enxergar de uma forma assim, descomplicada, pelos olhos do outro. O canto é uma coisa boa demais, é um prazer simples de compreender, tanto pra quem canta quanto pra quem ouve. Com certeza é a atividade humana mais próxima do que a gente poderia chamar de magia. Pensa só: sem usar nenhum objeto fabricado, apenas ativando uma parte do corpo que sequer dá pra enxergar de fora, um bom cantor é capaz de hipnotizar, emocionar, seduzir, arrepiar, transformar completamente a atmosfera de um lugar. Só pode ser um tipo de magia. Não é à toa que todo feitiço ou oração, pra ter efeito, precisa ser entoada pela voz. E fiquei pensando nos cantores que eu mais gosto de ouvir.
Na classificação dos tipos de voz, a minha entra na categoria dos barítonos, que é a voz masculina grave. É costume na música popular que os tenores, as vozes masculinas agudas, tenham mais destaque. Mas no Brasil a gente tem muito barítono bom pra se inspirar, também. Tim Maia, Seu Jorge, Renato Russo, Johnny Alf, Simonal, Jorge Aragão, João Nogueira, e mais recentemente o João Gomes. Mas tem um que, pra mim, é insuperável. Digo com tranquilidade que é o meu cantor favorito do mundo. Um barítono elegante. Encorpado porém delicado. Aveludado. Curiosamente, apesar de ter um timbre extraordinário, era completamente econômico nos malabarismos. Quase nunca usava um melisma, um vibrato, um truque qualquer pra se exibir. Não precisava. Sua emissão cristalina dispensava qualquer firula. Ainda por cima, quanto mais envelhecia, mais bonita ficava a sua voz. Quem conhece já percebeu que só posso estar falando de Emílio Santiago. Faz 13 anos que ele partiu, e vai demorar muito tempo pra aparecer alguém que chegue perto do que aquele homem cantava.
O mais estranho é que eu não tenho paixão por nenhum disco em particular do Emílio. Não gosto dos medleys infinitos das Aquarelas Brasileiras vol. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7… Torço o nariz pra muitos sons de teclado que estão ali… Mas amo os títulos enigmáticos e maravilhosamente cafonas das minhas músicas preferidas dele: “Saigon”, “Verdade Chinesa”, “Perfume Siamês”, “Flamboyant”. Enquanto escrevo, vou ouvindo aleatoriamente músicas dele e pensando que, no fundo, o que eu queria mesmo era ser um cantor de boleros e sambas-canção como o Emílio. Essa newsletter foi só pra dizer isso.
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍
Notícia quente: no próximo dia 10 vai sair o nosso álbum de tributo a Fausto, e vamos comemorar o lançamento em Ovar, no sábado dia 11. Depois, já que vou estar pertinho, no domingo dia 12 subo ao Porto pra uma roda com o Samba Sem Fronteiras. Na semana seguinte estou no Palmeiras, em Lisboa, apresentando mais uma vez o Meigo Energúmeno, e fazendo a ligação dele com O Homem Triste. E pra completar o mês, mais uma roda com o Samba Sem Fronteiras, mas em Lisboa — evento de colecionador, raríssimo!
🇵🇹 OVAR — dia 11/7: Festa (Parque Urbano de Ovar) – Do Cabo do Mundo: Um tributo imigrante a Fausto – Palco Verde, 18h – ENTRADA LIVRE
🇵🇹 PORTO — dia 12/7: Associação de Moradores da Lomba – Samba Sem Fronteiras – 17h
🇵🇹 LISBOA — dia 16/7: Palmeiras – Meigo Energúmeno – 21h – ENTRADA LIVRE
🇵🇹 LISBOA — dia 26/7: Casa Capitão – Samba Sem Fronteiras
NA ESCUTA, CÂMBIO 📡
Agora digam, cantores e cantoras, do palco, do chuveiro ou do karaoke, qual a voz masculina mais bonita do mundo, pros ouvidos de vocês?
Obrigado às dicas e desabafos sobre moda masculina que vocês mandaram depois da newsletter de junho. O Tonhaumn perguntou onde encontrei as roupas que tenho usado nos concertos do Homem Triste e, principalmente, como eu fiz pra manter o figurino na viagem pelo nordeste, que teve show praticamente todo dia. Então, meu amigo, encontrei garimpando em brechó e naquelas lojas chinesas, olhando inclusive na seção feminina, porque tem alguns cortes que dão caimento bom pra homem também. E no Brasil, como foram 8 apresentações, eu tava com 4 opções de camisa na mala. Foi só não pular e dançar muito que a roupa aguentou mais um diazinho sem lavar.
Também achei interessante saber da perspectiva da Ana Maria, brasileira vivendo em Portugal, que sente aquela escassez de cor e vivacidade que eu reclamei sobre as roupas masculinas, também nas femininas! Pelo menos em comparação com o que temos no Brasil. E não só nas roupas, mas também nos acessórios e maquiagem por aqui. Ou seja, além do problema de gênero, também pode ter um fator geográfico aí.
Ficamos por aqui. Um beijo pra vocês.
