newsletter #36

O HOMEM DA CAMISA VERMELHA

Um homem caminhava de camisa vermelha pelas ruas de Copacabana. Era década de 1950, e ninguém sabia quem ele era, o que fazia, de onde vinha e para onde ia. Era apenas um homem, num dia qualquer, caminhando pelas ruas de Copacabana, com sua camisa vermelha. Foi um escândalo. A vizinhança falou disso por semanas, talvez tenha saído até no jornal. Quem viu nunca mais se esqueceu. A mãe da minha terapeuta foi uma dessas testemunhas. Ela contou para a filha, que contou para mim na nossa última sessão, que, por caminhos que Freud explica, teve como grande assunto as “roupas para homens”.

Capa de jornal feita em IA, com o homem de vermelho
Invejosos dirão que isto é IA

Aparentemente, em Copacabana, há 70 anos, homens não vestiam “cores”. Muito menos cores fortes, como o vermelho.  Que tempos conservadores, não é mesmo? Pois é. Mas será que o mundo (dos homens) mudou tanto assim de lá pra cá?

Comecei a dar atenção a esse assunto (roupas) muito tardiamente, e só aconteceu por causa dos palcos. O desejo de comunicar ideias, propôr um estado de espírito, ou simplesmente demonstrar o quanto este é um momento especial para mim e o quanto eu me importo com quem veio me ver. Em algum momento percebi que o que eu levo vestido poderia comunicar todas essas coisas, antes mesmo de eu dizer a primeira palavra.

Foi, por um lado, como se eu tivesse ganhado um brinquedo novo. Por outro lado, é como se o brinquedo tivesse vindo com todas as peças faltando. Porque também descobri, horrorizado, que as seções masculinas das grandes lojas de roupas são sempre ridiculamente menores do que as femininas. E pior, são todas de uma monotonia, de uma pobreza, de um tédio desolador.

Homens vestidos iguais.
A Coleção Primavera-Verão 2027 na nossa loja

Para as apresentações d’O Homem Triste, por exemplo, eu tinha uma ideia bem clara: queria tons de rosa claro para mim, e tons de azul bebê para a banda. Com a Pri, nossa única mulher em palco, foi moleza. Em uma horinha de pesquisa ela encontrou várias opções diferentes: calça, vestido, blazer, macacão… Foi até difícil decidirmos entre todas as possibilidades. Com o resto da banda… foi um martírio. A parte da camisa até foi tranquila, mas e as calças azul bebê? Simplesmente não havia. Usar jeans (ganga, como se diz aqui em Portugal) estava fora de questão (e se você, camarada leitor, não compreende o porquê, você é parte do problema).

Imagino um cenário pós-apocalíptico em que um extraterrestre visita este planeta em busca de informações sobre a nossa extinta civilização. E só sobrou, de pé sobre a terra, uma H&M. O extraterrestre anota no seu caderno de campo: “Os indivíduos machos do Homo Sapiens, passada a infância, parecem desenvolver uma espécie de daltonismo severo, pois só conseguem enxergar, além do preto, do branco e da escala de cinzas, alguns tons de azul e marrom escuros. Todo o espectro de cores subitamente desaparece de suas vidas.”

Ilustração do livro The Descent of Man
Um bege é a loucura máxima!

Agora imaginem no meu caso, à procura de calças cor-de-rosa… Obviamente tive de recorrer a modelos femininos. E não foi a primeira vez. Já desde as apresentações do Sabina que tenho usado calças femininas para conseguir as cores que quero. Uma delas até se tornou minha calça favorita, por ter um corte bem diferente de tudo o que já vesti, e que por acaso caiu bastante bem em mim.

Falando assim pareço o cara mais desconstruído do mundo. Mas até bem pouco tempo a minha cabeça era muito diferente. Eu tinha aversão total a tudo relacionado à moda. O maior pesadelo de toda a minha juventude era sair pra comprar roupa com a minha mãe. Ela sofria pra aguentar a minha má vontade. Mas acho que eu sofria mais. Era um ódio e um desprezo completamente desproporcionais a tudo que remetesse ao vestuário. Quando fui morar sozinho e finalmente me vi obrigado a comprar roupas pra mim, aderi imediatamente à filosofia “Turma da Mônica”: vestiria sempre a mesma roupa todos os dias, para nem precisar pensar no assunto. Blusa branca e calças “chino” azul escuras. Nada mais. E assim foi durante alguns anos.

Guarda-roupa da Mônica
Uma escolha difícil

Nunca tinha parado pra refletir sobre de onde vinha essa repulsa tão grande contra uma coisa tão singela. Até encontrar, num livro que estou lendo agora, o “The Descent of Man”, do Grayson Perry, um capítulo dedicado à relação dos homens com as roupas. Perry é um homem cis, hetero, e crossdresser. A visão dele sobre o assunto é muito interessante:

Os códigos rígidos de uma masculinidade “à moda antiga”, segundo os quais comprar roupas é uma atividade feminina, é absorvido desde muito cedo. A ideia de que é possível adquirirmos novas identidades, expostas na vitrine de uma loja, ameaça a noção inconsciente de que o homem é o ser autêntico, natural, incorruptível. Há uma ideia equivocada sobre gênero, a de que a feminilidade é algo mais intencional, mais performativo do que a masculinidade. O guarda-roupa feminino é visto como um grande apêndice exterior, todo artifícios, penteados, maquiagens, acessórios e frufrus. Enquanto as roupas masculinas são inteiramente funcionais. É normal que o vestuário do homem “à moda antiga” passe uma sensação de clássico, essencial, apropriado, quase como se nem fossem roupas, mas uma segunda pele que cresce a partir da nossa função enquanto homens. Nossas roupas definitivamente não serão frívolas, nem decorativas. Um homem sente que as suas escolhas de roupa estão pré-determinadas, que não existem opções. Eu acho que, para muitos homens, o simples ato de se olhar no espelho para ver se estão bem vestidos seria o equivalente a sair do armário!

Capa do livro The Descent of Man
Ainda nem terminei, mas recomendo. Obrigado à Dandara, que me emprestou o dela!

Hoje, um homem de camisa vermelha caminhando por Copacabana já não é nenhum escândalo. Mas nas ruas das grandes cidades onde vivemos, vocês têm visto algum? Tentem. Eu comecei a prestar atenção, e tá difícil de encontrar. Experimentem dar uma volta pelo quarteirão, e reparem em quantos homens conseguem encontrar vestindo vermelho — ou qualquer outra cor menos discreta. Obviamente que não vale camisa do Benfica, nem do Flamengo, nem do MST. Não é a cor como código de pertença a um grupo, a uma ideologia, a uma instituição. É a cor como simples exercício de liberdade, de brincar com as possibilidades infinitas de expressão da nossa identidade. É pedir demais?

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍

Tenho vários modelitos cor-de-rosa, achados com muito esforço, pra começar a estrear nessa nova estação. Em Lisboa temos a tradicional festa Tropicáustica na Mouraria, no Porto temos a também tradicional roda do Samba Sem Fronteiras de volta às Virtudes, temos uma feira do livro, e o primeiro festival do verão, já essa semana. Temos até Copa do Mundo entre uma data e outra. Mas nesta última não terei qualquer participação.

🇵🇹 ODEMIRA — dia 3/6: Festival Quintais AdentrosoloRESERVAS

🇵🇹 LISBOA — dia 9/6: Arraial do Renovar a MourariaDJ-set Tropicáustica

🇵🇹 PORTO — dia 21/6: Samba nas VirtudesSamba Sem Fronteiras

🇵🇹 CAMINHA — dia 27/6: Feira do Livro de Caminhasolo – ENTRADA LIVRE

NA ESCUTA, CÂMBIO 📡

Queria agradecer à Mafalda, que nas últimas newsletters deixou aqui umas observações e insights muito bons sobre o concerto d’O Homem Triste; também à Ana Rita, que sugeriu mais um item na “Lista do Não Pode”; e à Gisele, que enviou um poema lindo, inspirado também na famigerada lista.

Hoje estou aceitando dicas de lojas de roupa masculina menos aborrecidas.

LUCA TE ESCUTA👂

Até mês que vem!

Image description