newsletter #34
MENSAGEM TELEPÁTICA PARA MORENO VELOSO
Eu estava almoçando com dois amigos em São Paulo, no final do ano passado. César, amigo velho, e Fernando, amigo novo. No meio da conversa Fernando dispara na minha direção: “Seu disco preferido de Caetano?”. Percebi imediatamente que era um teste, e devolvi na lata, sem hesitar: “Noites do Norte”. Fernando me encarou e deu o veredito: “Muito bem. Só por não ter falado Transa, já ganhou.” César é um caetanólogo graduado, e, pelo teor da conversa, senti que Fernando também era. Eu sou apenas um caetanista, mas passei no teste com louvor, e depois disso ficamos uma hora debatendo sobre a obra do mestre de Santo Amaro. Uma hora mas poderíamos ter ficado duas, três, cinco. Caetano Veloso fez muitas coisas maravilhosas em seus até agora 83 anos de vida. Mas recentemente tive que reformular minha opinião sobre sua obra mais bela. Na verdade a coisa mais bonita que Caetano fez foi uma parceria, e ela se chama Moreno Veloso.

Moreno em seu dia mais mau-humorado
Claro que durante as gravações de O Homem Triste, que tinham acontecido bem antes desse almoço, eu e Moreno tivemos dias de trabalho intenso, juntos em estúdio, fazendo a produção do disco. Mas nada como a estrada. Foi no fim de semana das apresentações do álbum em Lisboa e Braga, mês passado, que eu enxerguei com mais clareza essa jóia de pessoa. Vou contar pra vocês. Moreno não dá trabalho, joga pro time, divide tudo o que sabe — inclusive a alegria, que encontra nas coisas mais simples. Tem uma frase que ele costuma repetir, é praticamente seu bordão: “Eu adoro os meus amigos”. E isso é um ótimo resumo em cinco palavras de quem é Moreno. Ele costuma arrematar as histórias que conta com essa frase. Porque as histórias, claro, sempre envolvem algum amigo. E como ele gosta de contar essas histórias! Começar uma conversa, aprender uma coisa nova. Então não é assim que se fazem as amizades?
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Eu tentando aprender telepatia com Moreno…
Ao longo das muitas horas de carro, refeições e camarins, a gente pôde ouvir esse contador de histórias em ação. Ouvimos, por exemplo, como ele fez a letra da primeira parte de Ilê Ayê com 9 anos de idade, e depois teve que escrever a segunda, a pedido do pai, sem nem saber o que era uma segunda parte. Ouvimos como ele viu a morte de pertinho num voo recreativo de teco-teco com um brigadeiro aposentado que já não enxergava muito bem. Ouvimos como ele e sua banda chegaram três horas atrasados num show que iam fazer numa cidadezinha na Polônia, e não só o público ficou ali à espera, como foi um show tão lendário que, eles descobriram ao voltar lá anos depois, mandaram fazer uma placa com os nomes deles, que deve estar lá pendurada no teatro até hoje. Ouvimos como ele uma vez brincava no quintal da avó com um amigo, acertou uma bola na janela do quartinho dos fundos, onde, ele não sabia, dormia a sua tia, que acordou furiosa e saiu atrás dos moleques. A tia, no caso, é Maria Bethânia.
Mas a história que nos coube nessa viagem, a história que eu testemunhei, aconteceu no Theatro Circo, em Braga. Eu pedi a Moreno que cantasse uma música que ele gravou no primeiro álbum dele, Máquina de Escrever Música, há mais de 20 anos. É uma canção que eu achei que tinha tudo a ver com O Homem Triste, chamada Eu sou melhor que você. Só que Moreno não tocava ela há muito tempo, e, chegada a hora, como era de se esperar, a memória falhou. Logo nos primeiros versos. O que ele fez? Muito tranquilamente, ele disse exatamente estas palavras: “Viram? Já esqueci. Mas eu vou lembrar. Tem gente que sabe aí? Eu ouvi um pensamento na plateia, eu captei uma mensagem telepática agora.” E imediatamente retorna pra música, e segue com a letra certinha, sem pestanejar, até o fim. Corta para depois do concerto, nós no foyer do teatro assinando discos, e de repente chega um rapaz e diz pro Moreno: “Fui eu! Eu adoro aquela música, jamais ia imaginar que vocês iam tocar ela hoje, fiquei tão feliz! Fui eu que mandei a mensagem telepática!”. A alegria nos olhos do rapaz era verdadeira, eu vi. E Moreno responde, com o ar mais natural do mundo: “Ah, foi você. Eu recebi sim, obrigado.” Isso está gravado. Não a conversa depois do concerto, mas o próprio concerto, todo, inclusive o momento da telepatia. Vai estar em breve disponível na RTP Palco pra vocês verem como não estou mentindo.

…e funcionou! (ali na bateria o Carlos César, que também vai entrar nesta newsletter daqui a pouco)
Então, esse é o Moreno. Um baiano com um violão num ombro, no outro o tapete de yoga. Um quase vegetariano, meio escorpião meio sagitário, que numa hora te explica como essa ambivalência astrológica combina com o seu orixá de cabeça, Logunedé, e noutra hora te cita de memória o Livro de Jonas e discute traduções da bíblia. Um amigo a quem você pode ligar para tirar dúvidas de física ou de russo (ele estudou os dois na faculdade), ou para pedir uma receita de moqueca de caju ou de feijão de leite, que eu, aliás, preciso provar quando estiver na Bahia. E falando em Bahia…
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍
A notícia que eu há anos quero dar aqui nesta sessão da newsletter, finalmente vai acontecer: tour pelo Brasil, passando pelo nordeste! Vou mostrar as datas todas pra vocês aqui embaixo, mas preciso segurar a ansiedade porque ainda falta mais de um mês. Antes disso temos Abril, o mês mais bonito do ano em Portugal, quando acontecerão coisas jamais antes acontecidas. Por exemplo, a estreia de um projeto novíssimo, saído da cabeça do meu amigo e baterista Carlos César Motta: um tributo imigrante à obra de Fausto. Isto é, uma banda composta por imigrantes, tocando nossas versões de um dos maiores gigantes da música em língua portuguesa, que partiu não faz muito tempo. O projeto se chama Do Cabo do Mundo, e estreia em Pombal. Logo depois, uma segunda chance pra quem não conseguiu assistir O Homem Triste em Lisboa. Estaremos bem pertinho, na Amadora, com o espetáculo completão mais uma vez.
🇵🇹 POMBAL — dia 11/4: Teatro-Cine de Pombal – Do Cabo do Mundo: um tributo imigrante a Fausto (c/ Nani Medeiros, Selma Uamusse, Nancy Vieira e grande elenco) – BILHETES
🇵🇹 PORTO — dia 16/4: Escola das Artes (Univ. Católica) – solo – ENTRADA LIVRE
🇵🇹 AMADORA — dia 18/4: Recreios da Amadora – O Homem Triste – BILHETES
🇵🇹 FIGUEIRA DA FOZ — dia 21/4: Auditório Madalena Biscaia – Canções Para Beber com Pessoa (c/ Ana Deus) – ENTRADA LIVRE
🇵🇹 MONTEMOR-O-NOVO — dia 24/4: Biblioteca Municipal Almeida Faria – solo – ENTRADA LIVRE
☀️ Agenda Brasil ☀️
🇧🇷 BELO HORIZONTE — dia 29/4: Casa Outono – BILHETES
🇧🇷 SÃO PAULO — dia 7/5: Odette – BILHETES
🇧🇷 RIO DE JANEIRO — dia 9/5: Acaso Cultural – BILHETES
🇧🇷 SALVADOR — dia 14/5: Colaboraê – BILHETES
🇧🇷 RECIFE — dia 15/5: Pingo Arte Café – BILHETES
🇧🇷 JOÃO PESSOA — 16/5: General Store – BILHETES
🇧🇷 NATAL — 17/5: Figa – BILHETES
🇧🇷 FORTALEZA — 19/5: Casa Mercúrio – BILHETES
NA ESCUTA, CÂMBIO 📡
É isso, queridas e queridos que acompanham do Brasil esta newsletter. Vocês pediram por aqui, e eu escutei. Viram como funciona? Agora é com vocês, avisem os amigos, tragam todo mundo, que eu estou chegando.
É claro que faltaram muitas cidades onde eu ainda gostaria de ir. Mas continuo escutando. Falem comigo que a estrada é longa e a caravana pode parar por aí.
