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FOI NA TV QUE APRENDI A SER HOMEM

Eu levava essa vida dupla. Quando conheci meus primeiros amigos, moleques de praia, comecei com as primeiras namoradas em Copacabana, tudo isso era secreto. Eu ocultava algumas coisas do outro grupo, dos intelectuais da faculdade de direito. E dos meus amigos moleques de rua também, vice-versa. Eu me envolvi num incidente que é engraçado. Um amigo desse grupo da praia chamado Paulão, que era assim um oligofrênico total, um sujeito fortíssimo. Nós estudávamos jiu-jitsu com o Hélio Gracie e fazíamos uma série de coisas assim. Um dia ele ficou me olhando muito esquisito num ônibus, voltando da cidade. E de repente perguntei para ele: “O que está acontecendo? Por que você está me olhando assim?” E ele respondeu “É que me contaram que você anda escrevendo poesia. É verdade?” E respondi: “Eeeuuuuuuu?” (risos). Não era coisa de homem. Era como se ele estivesse me acusando de ser pederasta ou coisa assim.

Me pareceu inacreditável e ao mesmo tempo perfeitamente plausível quando li pela primeira vez esse relato. Óbvio e absurdo. Uma sensação estranha, parecida com aqueles desenhos ambíguos, onde claramente é um pato, mas se a gente olhar de novo claramente é um coelho, e é irresistível ficar trocando mentalmente de um para o outro. Como se a cabeça precisasse a qualquer custo fundir as duas imagens, mas cada vez que a gente escolhe uma imagem, a outra desaparece. Ler este relato me deixou inquieto assim. Aquele tipo de inquietação de onde geralmente surgem os desejos de criar alguma coisa. Uma música, um poema, um ensaio, um desenho, ou algo que combine todas essas coisas. Desconfio que foi naquele momento de inquietação que se plantou a semente do que veio a se tornar O Homem Triste, meu álbum novo, que saiu na semana passada.

Francisco Hurtz - "Fiscal de Cu" (2020)

Quem já leu o Meigo Energúmeno sabe que o amigo do Paulão, o que teve vergonha de assumir que andava escrevendo poesia por achar uma atividade pouco masculina, é simplesmente Vinicius de Moraes. Um Vinicius jovem, dando os seus primeiros e inseguros passos artísticos, mas dentro do qual já acontecia uma batalha feroz. Uma batalha entre a urgência de se provar um “homem de verdade” diante da sociedade (personificada pelo amigo Paulão), e o interesse pela poesia. Hoje nós sabemos, é claro, quem acabou ganhando essa luta. Mas já imaginaram um mundo onde o Paulão tivesse levado a melhor? Não só o que nós perderíamos por não ter a sua obra, mas também a tragédia individual, o sofrimento, e depois o ressentimento de uma pessoa que resolve se divorciar do seu maior talento, da sua maior paixão, por medo.

O primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é a violência contra as mulheres, mas sim que todos os homens participem de atos de automutilação psíquica, que destruam as partes emocionais que carregam em si.

Essa tragédia acontece todos os dias. Aconteceu com muitos homens que conhecemos. Em A vontade de mudar, de onde eu tirei esse trecho aqui em cima, achei graça em perceber que a bell hooks usa exatamente a mesma expressão que Vinicius usou para descrever a sua situação: vida dupla.

Os raros meninos que porventura vivem em lares antipatriarcais aprendem cedo a levar uma vida dupla: dentro de casa podem sentir, se expressar e existir; fora de casa, precisam se conformar ao papel de menino patriarcal. Meninos patriarcais, assim como os adultos patriarcais, conhecem as regras: sabem que não podem fazer nada considerado feminino ou afeminado.

Uma das primeiras coisas que fiz esse ano foi visitar uma escola no norte de Portugal, onde fizemos 3 encontros com alunos e alunas dos 14 aos 16 anos. Nós assistimos ao clipe “O Homem Triste” e depois conversamos durante uma hora e meia sobre masculinidade.

Foi mais uma daquelas experiências inquietantes. Por um lado, foi riquíssimo ouvir rapazes em pleno processo de se tornarem homens adultos falarem em primeira pessoa sobre essa experiência. Por outro lado, foi assustador reconhecer nos grupos de meninos o mesmíssimo ambiente de preconceito, violência e homofobia de quando eu saí da escola, há 20 anos. E que Vinicius certamente conheceu, há quase 100. Ouvir coisas do tipo: “se um amigo meu aparece de maquiagem um dia, eu deixo de ser amigo dele na hora”; ou “os rapazes precisam saber controlar as emoções, senão viram alvo de chacota”; ou “quando a minha irmã mais nova chora, os meus pais dizem ‘não faz mal, pode chorar’, mas quando eu choro eles dizem ‘pronto, já passou, não precisa chorar’”; ou “eu nunca vi o meu pai chorar” (vários disseram isso); ou “eu lembro a última vez que chorei, foi há muito tempo” (vários disseram isso); ou “se eu vir um homem vestido de mulher na rua, sou capaz de dar um soco” e ao ser perguntado por que, a resposta: “vai que ele tenta me agarrar!”

O medo é tremendo. A insegurança é tremenda. A pressão é implacável. Na rua, no recreio, na TV, no TikTok, na igreja, no futebol, ser homem é estar constantemente tendo que provar que se é homem. Mesmo quando não tem ninguém vendo. E nós estamos carecas de saber o resultado dessa equação, basta abrir o jornal. A última guerra, as últimas eleições, as últimas estatísticas de violência doméstica, de feminicídio, de suicídio, de encarceramento, de toxicodependência, de acidentes de trânsito. Em um trabalho sobre masculinidade, o caminho mais fácil seria simplesmente apontar o dedo pra tudo o que está dando errado. Mas não era essa a direção que eu queria seguir. O Homem Triste foi pensado como uma busca por caminhos diferentes. Imaginar formas diferentes de ser homem, onde não seja necessário perder a conexão com os sentimentos mais profundos, com a fragilidade, a delicadeza, o cuidado, a empatia.

Em um dos encontros na escola, perguntei aos meninos se eles já tinham desistido de alguma coisa que queriam fazer por não acharem que era própria para rapazes. Um deles disse que gostaria de dançar. Simples assim. Tenho pensado nele, e torcido pra que ele consiga vencer a batalha contra os seus Paulões, e dance, em vez de se tornar mais um homem triste.

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Ouvir álbum “O HOMEM TRISTE”

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍

Enfim é chegada a hora de levar esse disco pro palco! Já temos 5 datas marcadas em Portugal, e mais por anunciar. Os concertos de Braga e Lisboa terão participação do Moreno Veloso, produtor do álbum, e já têm as salas quase cheias, atenção!
No final dessa primeira vaga de apresentações ainda vai ter espaço pra uma reposição do Samba de Guerrilha (o espetáculo encenado!) em Coimbra. Isso não acontece sempre (no ano passado, por exemplo, não fizemos), então quem estiver por perto, recomendo fortemente que aproveitem, e avisem as amizades para aproveitar também!

🇵🇹 AMARANTE — dia 31/1: Amarante Cine-TeatroBILHETES

🇵🇹 VISEU — dia 6/2: Teatro Viriato BILHETES

🇵🇹 MATOSINHOS — dia 7/2: Teatro Municipal Constantino Nery BILHETES

🇵🇹 BRAGA — dia 28/2: Theatro Circo convidado: Moreno VelosoBILHETES

🇵🇹 LISBOA — dia 2/3: Teatro Maria Matosconvidado: Moreno Veloso BILHETES

🇵🇹 COIMBRA — dia 11/3: Convento S. Francisco Samba de Guerrilha BILHETES

 

NA ESCUTA, CÂMBIO 📡

Agora, aqui entre nós, só pra vocês que acompanham essa newsletter e leem até o fim: vou sortear um bilhete para cada uma dessas datas! Quer dizer, sortear não, eu vou dar pros primeiros que mandarem um alô pelo nosso canal de conversa, o botão aqui embaixo. Basta clicar, deixar o nome, o email, e a cidade onde quer ir nos assistir. Se você for o primeiro ou a primeira, eu vou te avisar e passar todas as coordenadas. Onde nos vemos?

LUCA TE ESCUTA👂

Até já!

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