newsletter #31

O PRIMEIRO MAR DE TODO MUNDO

O menino estava morrendo de vergonha da mãe, enquanto ela demonstrava conhecer todos os gritos da torcida do Fluminense. A família tinha ido ao Maracanã assistir à semifinal da Copa do Brasil, Flu contra Vasco. O menino e o pai, tricolores. Ela, vascaína. E eu, apenas um estranho ali ao lado, com um olho no jogo e outro nas três figuras. O menino não devia ter mais de 13 anos. Trepava nas cadeiras, gritava sem parar, comentava as substituições, insultava os jogadores, o técnico, o juiz, o bandeirinha, a torcida adversária… Dominava, portanto, com muita desenvoltura, todas as competências para assistir futebol entre homens. Já o pai parecia mais interessado na cerveja. Deve ter saído pelo menos umas cinco vezes durante a partida pra reabastecer o copo. “Parece que veio ao estádio só pra beber”, reparou o meu pai, que também observava a família, com um tom de reprovação. Mas eu, depois de refletir um pouco, acabei achando a atitude do sujeito absolutamente legítima. Podendo pagar o ingresso e o preço obsceno das bebidas dentro do estádio, por que não? Entre beber sozinho em casa assistindo TV, e beber ao lado de mais 60 mil pessoas, compreendo quem prefira a segunda opção.

Francisco Hurtz - "Fiscal de Cu" (2020)

Eu e meu pai no Maracanã

E o que dizer da mãe? Do momento em que sentou na cadeira até o apito final, não parou de abanar um gigantesco leque com que espantava o calor não só seu, mas também de quem estivesse até três filas atrás dela, tão grande era a coisa. Mas não era só o leque que ela agitava. Essa mulher tinha uma energia e uma boa disposição inesgotável. Cantava e dançava as músicas das duas torcidas. Quando o Vasco ia bem, vibrava. Quando o Fluminense ia bem, vibrava também, contente pelos rapazes. E não era por ignorância ou indiferença ao resultado. Se notava que ela conhecia os times e compreendia perfeitamente o contexto daquela partida (melhor que do que eu, diga-se de passagem, que sou um torcedor bissexto e nem o nome dos jogadores do meu clube sabia direito). Não. Ali estava uma pessoa que simplesmente sabia apreciar o esporte. Intensa, sim, porém nunca violenta — em contraste com o ambiente ao redor.

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Grito de torcida do Vasco (ouvido ao vivo neste dia)

Mas o filho sentia vergonha da mãe. Não por ela ser uma analfabeta futebolística, mas precisamente pelo contrário! E por quê? Que raio de mecanismo psíquico seria aquele? Liguei as antenas e comecei a observar aquele espaço de predominância tão masculina, que é um estádio de futebol. Lembrei de uma observação recorrente em vários estudos sobre masculinidade que ando lendo, e que dizem que os homens são ensinados a reprimir publicamente todas as emoções, exceto uma: a raiva. Mas eu olhava ao redor durante o jogo e não era bem isso o que via. Eu via homens emotivos, se abrindo em rompantes extremos de alegria, de medo, de amor, de tristeza, de frustração, desespero, dúvida, confusão, e até de carinho (um carinho bruto, é verdade, mas carinho) nas mãos entrelaçadas e abraços apertados que se dá democraticamente a amigos e estranhos na hora do gol. Fiquei pensando: será então que os estudos sobre masculinidade estão errados? Ou será que o buraco é mais embaixo, e essa questão é mais complexa do que eu pensava?

Imaginem só essa combinação: viver, por um lado, o tempo todo reprimindo dentro do peito todo sentimento que não seja a raiva; e, por outro lado, ter um único lugar onde, de vez em quando, durante apenas um par de horas, junto com milhares de outros homens, é possível pôr todos os outros pra fora, de uma vez. Imaginem no que se transformaria esse lugar, nesse momento de catarse. Uma roda gigante explosiva de emoções. Um grande foco de hipertrofia das paixões. O lugar se transformaria, em suma, num estádio de futebol. Onde a demonstração explícita dos sentimentos do homem, em toda a sua variedade possível, é coletivamente autorizada e acolhida. O prazo de validade, porém, é tão curto que elas não conseguem tomar suas formas mais naturais. Todas assumem uma expressão violenta, simplesmente por ser essa a linguagem que está mais à nossa mão. A mais familiar, a mais aceita, praticada e ensinada a nós desde meninos.

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Grito de torcida do Fluminense (ouvido ao vivo neste dia)

E isso me fez pensar em como a experiência de frequentar um grande estádio de futebol, assim como a experiência de tantas outras coisas num mundo machista, pode ser diferente pra um homem e pra uma mulher. Me fez pensar naquela mãe e naquele filho, atravessando o portão de saída. Pra ela, o mundo talvez continue o mesmo da porta pra fora. Pra ele, talvez uma janela mágica se feche, e regras temporariamente suspensas voltem a valer. Pode ser que venha daí o desconforto do menino com o comportamento da mãe lá dentro. Um incômodo com quem esbanja leveza e despreocupação, incompatíveis com a gravidade e a importância que aquele lugar ocupa no imaginário masculino. Uma incoerência que roça a falta de respeito. Como alguém que conta piada no velório, ronca no cinema, solta pum na missa.

Eu estou aqui especulando, especulando, mas pode ser só chatice de adolescente mesmo. Sentir vergonha dos pais de vez em quando faz parte de ser filho, não faz? Da “filhidade”. Aliás, devíamos ter uma palavra pra isso. Pra experiência de ser filho. Temos maternidade pras mães. Paternidade pros pais. E pros filhos? E filhas? Mas especialmente filhos. A mim dava jeito essa palavra existir porque é sobre isso a primeira música que quero revelar do meu próximo álbum, O Homem Triste. Sobre, talvez, o afastamento, o corte com o feminino materno, que meninos fazem em busca de uma identidade masculina própria. As dores de crescimento, a ponta de remorso que esse afastamento provoca em nós… Mas já estou falando demais, vocês ouçam e tirem suas próprias conclusões. Aliás, se você está lendo essa newsletter é porque a música já saiu. Ela se chama Primeiro Mar, e começa assim:

“O primeiro mar de todo mundo
Fica dentro de uma mulher
E no seu olhar fica o segundo
De onde ninguém sai porque quer”

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OUVIR “PRIMEIRO MAR”

Aqui em cima está o link pra vocês ouvirem. No dia 9 sai mais uma, que se chama Arqueologia de Armário. Depois, no dia 16, sai outra, a Se Acabou. E no dia 23, enfim, sai o álbum completo. A partir daí, 2026 adentro, essa newsletter vai virar um laboratório d’O Homem Triste. O meu hiperfoco nesse assunto das masculinidades já está rolando há muito tempo, mas eu tenho segurado a onda por aqui pra não queimar a largada. Primeiro quero que o álbum saia, e depois sim, vou abrir a torneira e começar a partilhar aqui as reflexões, as histórias, as leituras e recomendações que tenho acumulado. E vou contar pra vocês, minha gente, ando convencido de que este é o grande assunto da nossa geração. Do nosso século, talvez. Em tempo de guerras, de novos fascismos, de crise climática, de psicopatas ficando trilionários enquanto o resto do mundo está exausto, ansioso e deprimido, nenhum problema realmente se resolve, nenhum desses, se não nos resolvermos a nós, homens. Se não conseguirmos transformar o significado dessa palavra. Voltaremos a essa conversa.

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA📍

As primeiras apresentações do álbum vão ser em Portugal, e já estão marcadas. Vou passar aqui todas as datas confirmadas até agora, de janeiro a março, e nas próximas news a gente vai atualizando. Ali misturada na agenda também está uma reposição de concerto que era pra ter acontecido no verão passado, na Covilhã, mas que foi cancelada por causa dos incêndios. De resto, é tudo apresentação do “macho” (nome carinhoso que nós demos ao Homem Triste, nas internas), sendo que algumas dessas datas vão ter participação do Moreno Veloso, que, além de ser mesmo o Moreno Veloso (o que não é pouco), foi também o produtor do álbum. 🩷

🇵🇹 COVILHÃ — dia 17/1: Teatro Municipal da Covilhã BILHETES
🇵🇹 AMARANTE
— dia 31/1: Amarante Cine-TeatroBILHETES
🇵🇹 VISEU — dia 6/2: Teatro Viriato
🇵🇹 MATOSINHOS — dia 7/2: Teatro Municipal Constantino Nery BILHETES
🇵🇹 BRAGA — dia 28/2: Theatro Circo convidado: Moreno VelosoBILHETES
🇵🇹 LISBOA — dia 2/3: Teatro Maria Matosconvidado: Moreno Veloso BILHETE

NA ESCUTA, CÂMBIO 📡

O que eu queria agora era realmente ouvir vocês, amigos homens que andam por aqui. Como vocês estão? O que acham daquilo que falei da raiva? Do futebol? Da adolescência?

LUCA TE ESCUTA

Na newsletter passada descobri, através dessa caixa de conversa, sobre uma manifestação feminista que houve em Lisboa durante o PREC, e que foi sabotada até pela esquerda. Lembrei disso porque em dezembro estive no Brasil bem no fim de semana em que aconteceram grandes manifestações contra o feminicídio, depois de uma série de crimes horrendos no país. Achei muito interessante que nas chamadas para os atos o foco estava em chamar os homens pra luta, em cobrar essa responsabilidade. Mas eu estive no de São Paulo, e fiquei muito triste por ver duas coisas: primeiro, que boa parte da esquerda não se mobilizou pela causa; e segundo, porque havia muito (mas muito) menos homens do que mulheres.

E pra finalizar, respondendo a uma pergunta que chegou por aqui também, sobre por onde começar a ler o Luiz Antonio Simas, eu sugiro dois livros: “Pedrinhas Miudinhas”, ou “O Corpo Encantado das Ruas”. Qualquer um dos dois é um ótimo começo. E ficamos por aqui.

Feliz 2026!

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